CAPÍTULO 5 — DUAS INFÂNCIAS, ALGUMAS EXPERIÊNCIAS SEMELHANTES

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
Eclesiastes 3:1

Antes que existisse um casal, existiram duas crianças.

Antes que houvesse uma família formada pela união de Ivanildo Melo Regis e Rosinete Gonsaga de Lima, existiram duas famílias de origem, duas casas, diferentes experiências, diferentes pessoas e diferentes caminhos.

Eles ainda não sabiam um do outro como parte de uma história comum. Não havia encontro, não havia aliança, não havia sequer a compreensão de que suas trajetórias um dia se cruzariam. Havia apenas a vida acontecendo.

É por isso que olhar para as duas infâncias lado a lado não significa procurar uma semelhança artificial. Significa perceber aquilo que realmente pode ser aproximado e, ao mesmo tempo, respeitar aquilo que permaneceu próprio de cada história.

Ivanildo nasceu em Duque de Caxias, em 25 de janeiro de 1975, e sua infância foi marcada pela estrutura de sua família, pela presença de sua mãe, Joana Maria de Melo Regis, pela educação recebida e também pela presença de Zefa, a mulher que permaneceria em sua memória como a “mãe do amor”.

Rosinete, por sua vez, cresceu em uma família numerosa. Eram quatorze irmãos — sete mulheres e sete homens. A casa de seus pais era espaçosa, com três quartos, duas varandas, cozinha, banheiro, copa, sala e um espaço que a família chamava de “varandão”, onde todos permaneciam juntos, conversando muitas vezes até tarde da noite.

E aqui já aparece uma primeira diferença importante.

As duas histórias nasceram dentro de estruturas familiares próprias, com suas particularidades. Não eram casas iguais. Não eram experiências iguais. Não tinham as mesmas pessoas nem os mesmos acontecimentos.

Mas havia algo que as aproximava profundamente: a família ocupava um lugar central na formação dos dois.

DUAS CASAS, DOIS MUNDOS

A infância de Rosinete revela uma casa cheia de movimento.

Quatorze irmãos significavam convivência constante, responsabilidades compartilhadas, brincadeiras, conversas, conflitos naturais da convivência e também uma experiência intensa de pertencimento.

Ela própria relata que, desde criança, tinha personalidade forte, gostava de ajudar e cuidar. Havia tarefas que eram compartilhadas, e ela participava ativamente da vida dos irmãos. Levava-os para tomar vacina, acompanhava-os e também estava presente quando iam jogar bola. Sua atenção não se limitava aos irmãos: alcançava também as crianças e amizades da vizinhança.

Naquele ambiente, Rosinete aprendeu cedo que viver em família também significava cuidar de pessoas.

Ivanildo também teve na família uma das primeiras escolas de sua vida.

A presença de Joana, sua mãe, seria fundamental em sua formação, assim como a presença de Zefa. Essas relações não pertencem apenas ao passado: elas permaneceriam como referências na memória do homem que ele se tornaria.

Assim, embora as experiências domésticas fossem diferentes, existe uma aproximação que merece ser registrada: ambos foram formados dentro de relações familiares que deixaram marcas duradouras.

A infância não terminou quando eles cresceram.

Ela continuou presente na maneira como cada um compreendeu cuidado, responsabilidade, convivência e afeto.

A SIMPLICIDADE DE UMA ÉPOCA

Outro ponto de aproximação está no ambiente social em que essas infâncias aconteceram.

Rosinete cresceu em um tempo em que a vizinhança tinha uma convivência muito mais próxima. Havia lugares onde sequer existia calçada; muitas áreas eram de barro. Mas a simplicidade material não impedia a existência de uma vida comunitária intensa.

Havia fraternização.

As crianças brincavam juntas. As famílias se encontravam. Os vizinhos participavam de momentos de doença e de festividade. Havia aconselhamento, conversa e apoio.

Quando havia oportunidade e os pais permitiam, as crianças permaneciam brincando até tarde da noite. Entre as brincadeiras estavam o queimado e o chamado garrafão.

Também havia festas de aniversário no grande quintal da família, onde as pessoas se reuniam e Rosinete participava ajudando e servindo.

Era uma infância em que a rua ainda podia ser extensão da casa.

Esse aspecto ajuda a compreender algo importante sobre Rosinete: sua capacidade de conviver com pessoas não surgiu posteriormente. Ela já aparecia na infância.

Com quem conhecia, conversava. Com quem tinha amizade, brincava, sorria e se aproximava. Com desconhecidos, podia ser mais séria e reservada. Mas, uma vez estabelecida a confiança, entregava-se à amizade.

Essa característica se tornaria importante muitos anos depois, quando sua vida passaria a envolver cuidado, liderança e serviço.

QUANDO BRINCAR TAMBÉM ERA APRENDER A CONVIVER

As brincadeiras ocupavam um espaço importante na infância de Rosinete.

Mas não eram apenas brincadeiras.

Elas eram também uma forma de aprender a dividir espaço, respeitar regras, lidar com outras crianças e pertencer a um grupo.

Na antiga festa caipira realizada na vizinhança, por exemplo, as famílias montavam barracas. Havia venda de peixe, cachorro-quente, barraca do beijo e pescaria. Rosinete guarda especialmente a lembrança de sua madrinha Sônia, com quem convivia naquele contexto, e do padrinho Zezinho, também importante nessa memória. A pescaria, com seus prêmios e brinquedos, era uma das atrações de que ela gostava. As festas podiam atravessar a noite e continuar até o dia seguinte.

Essas lembranças mostram uma infância construída não somente dentro de casa, mas entre casa, vizinhança, família e comunidade.

Sobre Ivanildo, as fontes preservadas para este capítulo não permitem afirmar que tenha vivido as mesmas festas ou exatamente as mesmas brincadeiras. E essa diferença precisa ser respeitada.

Uma biografia verdadeira não transforma lembranças diferentes em lembranças iguais apenas para produzir uma narrativa mais bonita.

A beleza está justamente na verdade.

DIFICULDADES QUE ENSINARAM

Nenhuma das duas infâncias pode ser compreendida apenas pela alegria.

A vida também apresentava dificuldades.

Rosinete cresceu em uma família que não tinha abundância financeira. Houve momentos em que as condições eram limitadas. Em determinado período, ela passou uma temporada na casa de uma tia, no Caju, convivendo com três primos. Essa passagem esteve relacionada, entre outros fatores, a problemas recorrentes de saúde, especialmente bronquite, e ao desejo da tia de tê-la consigo. Na casa da tia, foi recebida com muito carinho e respeito, sendo tratada, segundo seu próprio relato, “como uma princesa”.

Ali também recebeu conselhos e viveu uma experiência familiar que permaneceu positivamente em sua memória.

Isso mostra que as dificuldades não foram as únicas forças presentes em sua formação.

Havia também acolhimento.

Havia pessoas.

Havia família.

Havia vizinhos.

Havia professores.

A primeira professora que Rosinete jamais esqueceu foi Vera, lembrada com grande carinho. E havia também Nilza, que atuava como explicadora na mesma localidade e teve papel fundamental para que Rosinete aprendesse a escrever.

Na formação de uma criança, muitas vezes são essas presenças aparentemente simples que permanecem.

Um professor.

Uma vizinha.

Uma madrinha.

Um padrinho.

Um irmão.

Uma mãe.

Um pai.

Uma pessoa que ensinou.

Uma pessoa que cuidou.

Uma pessoa que simplesmente esteve presente.

O VALOR DE CUIDAR

Talvez uma das aproximações mais importantes entre as duas histórias esteja naquilo que cada um levou da infância para a vida adulta.

No caso de Rosinete, o cuidado apareceu muito cedo.

Ela gostava de ajudar. Gostava de cuidar. Acompanhava os irmãos. Participava da vida das crianças. Estava inserida nas relações da vizinhança. Sua personalidade era forte, mas isso não a tornava uma pessoa agressiva. Pelo contrário: o relato sobre sua infância destaca uma liderança acompanhada de paz, calma, fraternização e caráter.

Essa combinação é importante.

Liderança não significava domínio.

Era uma liderança que podia caminhar junto com cuidado.

Era uma personalidade forte que podia coexistir com fraternidade.

E isso ajuda a compreender uma parte importante da mulher que Rosinete se tornaria.

No caso de Ivanildo, sua infância também deixou marcas relacionadas à família, à educação e às referências afetivas que seriam aprofundadas ao longo de sua trajetória.

Ainda não existia o homem que posteriormente enfrentaria responsabilidades de marido, pai, obreiro e líder.

Existia apenas o menino.

Mas algumas sementes já estavam sendo plantadas.

VALORES QUE NASCERAM ANTES DA ALIANÇA

Rosinete afirma que seus pais lhe transmitiram caráter e respeito pelo próximo. A família ensinava também a importância da unidade e da união.

Esses valores não ficaram presos à infância.

A família continuou sendo uma referência importante em sua vida.

E essa é uma das partes mais significativas quando se observa a história dos dois.

Antes de aprenderem a viver juntos, cada um precisou aprender, em seu próprio ambiente, aquilo que significava viver com outras pessoas.

Antes de formarem uma família, foram filhos.

Antes de cuidarem de uma casa, aprenderam dentro de suas casas.

Antes de caminharem como marido e mulher, caminharam como crianças dentro de suas próprias famílias.

Antes da aliança, houve formação.

“Tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens.”
Colossenses 3:23

DUAS HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO SE RECONHECIAM

Há algo particularmente impressionante quando se olha para esse período com o conhecimento que o futuro nos permite ter.

Ivanildo e Rosinete estavam vivendo suas próprias infâncias.

Cada um tinha seus irmãos, seus pais, seus amigos, seus espaços, suas lembranças e seus desafios.

Rosinete crescia cercada por uma família numerosa e por uma vizinhança onde aprendeu a conviver, ajudar e liderar.

Ivanildo crescia construindo suas próprias referências familiares, especialmente através de sua mãe, Joana, e das pessoas que marcariam sua formação.

Nenhum dos dois estava pensando no outro.

Não havia ainda uma história de casal para contar.

Não havia casamento.

Não havia ministério compartilhado.

Não havia filhos.

Não havia as experiências que posteriormente fariam suas histórias se entrelaçarem.

Havia somente duas vidas caminhando.

Separadamente.

E é justamente por isso que este capítulo não deve terminar afirmando que todas as coisas já eram claramente visíveis.

Não eram.

O que hoje pode ser compreendido como preparação só seria reconhecido muito depois.

Naquele tempo, eram apenas acontecimentos da infância.

Uma brincadeira.

Uma conversa.

Uma professora.

Um irmão acompanhado.

Uma festa.

Uma casa cheia.

Uma mãe.

Um pai.

Uma vizinha.

Uma lembrança.

Uma dificuldade.

Um aprendizado.

A vida acontecendo sem que eles soubessem o que viria.

O QUE O FUTURO AINDA NÃO HAVIA REVELADO

É possível olhar para trás e perceber que algumas características já estavam presentes.

Rosinete, ainda menina, demonstrava força de personalidade, capacidade de comunicação, cuidado com pessoas e espírito de liderança. Sua própria história registra que esses traços apareceram cedo.

Ivanildo, por sua vez, carregava as marcas de sua própria formação familiar e das pessoas que participaram de sua infância.

Mas nenhum deles poderia saber, naquele momento, como essas características seriam utilizadas no futuro.

É aqui que a história ganha profundidade.

A infância não explica tudo.

Mas ela deixa marcas.

E algumas dessas marcas só podem ser reconhecidas quando a vida já percorreu muitos anos.

Mais tarde, quando Ivanildo e Rosinete finalmente se encontrassem, cada um chegaria ao encontro trazendo uma história que o outro ainda desconhecia.

Ele traria sua infância.

Ela traria a dela.

Ele traria suas referências.

Ela traria as suas.

Ele traria suas feridas, aprendizados e experiências.

Ela também.

E nenhum dos dois chegaria vazio ao encontro.

Cada um chegaria formado por uma história anterior.

Essa talvez seja a principal semelhança entre suas infâncias:

não terem sido iguais, mas terem cumprido, cada uma à sua maneira, o papel de formar duas pessoas que um dia precisariam aprender a caminhar juntas.

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele o fará.”
Salmos 37:5

Naquele tempo, porém, isso ainda era desconhecido.

Eram apenas duas infâncias.

Duas casas.

Duas famílias.

Dois caminhos.

Duas histórias que ainda não sabiam que, muitos anos depois, deixariam de ser apenas duas histórias separadas.

Porque o encontro ainda não havia acontecido.

Mas a vida já estava formando aqueles que, um dia, caminhariam lado a lado.