CAPÍTULO 10 — AS PRIMEIRAS MARCAS DA FÉ

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.”
— Provérbios 22:6

Há histórias em que a fé chega como uma ruptura. Há outras em que ela começa muito antes de receber um nome, muito antes de uma decisão consciente, muito antes de uma experiência que possa ser apontada no calendário.

Na história de Ivanildo Melo Regis e Rosinete Gonsaga de Lima, é preciso distinguir essas duas coisas.

Houve momentos em que a fé assumiu uma forma consciente, definida e decisiva. Mas, antes deles, existiram sementes.

Existiram pessoas.

Existiram famílias.

Existiram palavras.

Existiram exemplos.

Existiram experiências que, naquele tempo, talvez não parecessem anunciar coisa alguma, mas que, olhando para trás, passaram a ocupar outro lugar na memória.

É justamente nesse território que este capítulo se encontra: antes da caminhada espiritual plenamente estabelecida, quando a fé ainda começava a deixar suas primeiras marcas.

Não se trata ainda de contar a caminhada de Rosinete aos quatorze anos. Essa passagem terá seu próprio momento na história. Tampouco se trata de antecipar o encontro de Ivanildo com Jesus em 1994. O que importa aqui é compreender o terreno anterior: aquilo que existia antes da decisão, antes da maturidade espiritual, antes de compreenderem o que Deus faria de suas vidas.

A fé também pode começar dentro de casa

Quando se procura a origem da fé de uma pessoa, nem sempre a resposta está inicialmente dentro de uma igreja.

Às vezes, ela começa naquilo que uma criança observa dentro de casa.

Começa na maneira como os pais vivem.

Começa nas palavras que escuta.

Começa nos valores que aprende.

Começa na forma como a família atravessa dificuldades.

Começa naquilo que se aprende sobre respeito, caráter, união e responsabilidade.

No caso de Rosinete, a família teve papel decisivo em sua formação. Seus pais, José Gonzaga e Rosilda, foram as pessoas que mais marcaram sua criação. A relação com o pai era boa, e ela guardou dele lembranças de convivência, conversas e momentos em família. Havia também uma forte valorização da unidade familiar, expressa nas reuniões, nos almoços e nos momentos compartilhados.

Esses elementos não devem ser confundidos automaticamente com uma conversão ou com uma caminhada espiritual formal. Eles pertencem a outro nível da formação.

Mas existe uma diferença entre dizer que alguém já possuía uma vida espiritual plenamente estabelecida e reconhecer que o ambiente em que essa pessoa cresceu ajudou a formar sua maneira de compreender a vida, as pessoas e os valores.

E isso importa.

Porque a fé não se constrói somente nos grandes acontecimentos. Muitas vezes, ela encontra seus primeiros espaços em coisas aparentemente pequenas.

Rosinete e as marcas deixadas por sua família

A infância de Rosinete foi marcada por experiências familiares que permaneceram em sua memória.

Seu pai gostava de reunir a família nos finais de semana, com churrasco e almoço em família. Mesmo posteriormente, quando já estava mais velho e enfrentava problemas de saúde, uma das orientações que permaneciam fortes em sua fala era a importância de cuidar da família e permanecer unido.

Esse ensinamento encontrava eco em outros aspectos de sua criação.

Rosinete também passou um período na casa de uma tia, no Caju, no Rio de Janeiro, convivendo com seus primos Fátima, Nilda e Edmilson. Não se tratou simplesmente de uma consequência financeira, mas também de uma fase relacionada às dificuldades respiratórias que ela enfrentava na infância e ao desejo da tia de tê-la por perto. Naquela casa, segundo seu próprio relato, foi tratada “como uma princesa”, recebendo carinho, respeito e conselhos.

São lembranças que, quando observadas isoladamente, parecem pertencer apenas à infância.

Mas a história humana raramente é construída por acontecimentos isolados.

O que uma criança recebe de seus pais, de seus familiares e das pessoas que a cercam pode permanecer dentro dela durante muitos anos, mesmo quando ainda não consegue compreender plenamente o significado dessas experiências.

Foi assim que valores como união, caráter e respeito ao próximo passaram a fazer parte da formação de Rosinete.

Esses valores não eram ainda toda a sua caminhada com Deus.

Mas eram parte do terreno sobre o qual essa caminhada posteriormente se desenvolveria.

Antes da igreja, havia uma formação

Existe uma tentação, quando se olha para uma história espiritual depois que ela já está completa, de procurar um único momento e dizer: “foi aqui que tudo começou”.

A realidade costuma ser mais profunda.

No caso de Rosinete, não seria historicamente correto afirmar que sua caminhada com Deus começou somente aos quatorze anos, como se nada anterior tivesse importância. Aos quatorze anos aconteceu uma mudança concreta: ela começou a ir à igreja com sua mãe e sua irmã Rosineide e passou a buscar a Deus de maneira mais séria.

Mas isso veio depois de uma infância inteira de formação.

A própria história anterior já continha referências familiares e valores que fariam parte de sua identidade.

Por isso, este capítulo não precisa forçar uma experiência espiritual específica que não esteja documentada. Ele pode fazer algo mais honesto e, justamente por isso, mais profundo:

mostrar que a fé que posteriormente ganhou forma não apareceu em uma vida vazia de referências.

Havia uma história antes dela.

Havia uma família.

Havia ensinamentos.

Havia pessoas.

Havia experiências.

E havia uma menina crescendo dentro de tudo isso.

E Ivanildo?

Enquanto a história de Rosinete apresentava essas primeiras marcas no ambiente familiar, a trajetória de Ivanildo seguia seu próprio curso.

Sua formação também foi marcada por pessoas que deixaram impressões profundas em sua vida. Sua mãe, Joana Maria de Melo Regis, teve papel fundamental em sua criação, assim como Zefa, a mulher que ele posteriormente reconheceria como uma verdadeira “mãe do amor”.

A infância de Ivanildo não deve ser recontada aqui, porque sua história familiar já recebeu espaço próprio nos capítulos anteriores. O que importa neste ponto é reconhecer que, antes de sua experiência espiritual adulta, também havia nele uma história de formação.

Sua caminhada posterior não surgiu fora da vida que havia vivido.

Ela surgiria dentro dela.

E isso se tornaria especialmente importante quando, muitos anos depois, uma semente plantada por meio de uma jovem que o evangelizou em seu próprio bairro despertasse nele o desejo de conhecer a Deus. Segundo seu testemunho, ele começou então a ler a Bíblia e passou a desejar experimentar o poder de Deus. Esse processo conduziria posteriormente ao dia 04 de abril de 1994, quando ele relata ter tido seu encontro com Jesus Cristo.

Mas aquele momento ainda estava adiante.

Neste capítulo, estamos olhando para o que veio antes.

Duas vidas sendo formadas sem saberem o que o futuro guardava

Essa talvez seja uma das características mais importantes do começo desta história.

Ivanildo e Rosinete estavam sendo formados em ambientes diferentes, vivendo experiências diferentes, atravessando suas próprias fases da infância e da juventude.

Eles ainda não compreendiam o que o futuro reservaria.

Mais tarde, a própria história revelaria que suas trajetórias haviam se aproximado de maneiras que eles não percebiam naquele momento. Mas não devemos colocar no passado uma compreensão que só nasceu posteriormente.

Naquele tempo, eles viviam o presente.

É somente olhando para trás que se consegue perceber determinadas conexões.

E essa distinção é essencial para uma biografia verdadeira.

A fé de Rosinete não deve ser antecipada artificialmente para produzir uma narrativa mais impressionante. Sua história é suficientemente forte quando contada como aconteceu: primeiro houve a formação familiar; depois vieram os primeiros movimentos conscientes de busca; aos quatorze anos, a caminhada ganhou uma nova definição.

Da mesma maneira, a experiência de Ivanildo com Deus precisa permanecer em seu tempo histórico. A semente do evangelho veio antes; a leitura da Bíblia veio antes; o desejo de conhecer o poder de Deus começou a crescer; e, depois, chegou o momento decisivo de 1994.

Cada coisa no seu tempo.

As sementes não fazem barulho

Há sementes que ninguém percebe quando são plantadas.

Elas não fazem barulho.

Não exigem reconhecimento.

Não anunciam aquilo que serão.

Simplesmente permanecem.

Na história de Rosinete, algumas dessas sementes estavam nos ensinamentos recebidos dentro de sua família: unidade, união, caráter e respeito ao próximo.

Na história de Ivanildo, sua formação familiar e as experiências de sua juventude também faziam parte daquilo que ele carregaria para os anos seguintes.

Nenhum dos dois, naquele período, poderia olhar para o futuro e enxergar a história que ainda seria escrita.

Eles não sabiam do encontro.

Não sabiam do relacionamento.

Não sabiam do casamento.

Não sabiam das longas orações, dos jejuns, das madrugadas, dos montes e das experiências que posteriormente fariam parte da história de ambos.

Tudo isso ainda estava distante.

O que existia naquele momento era a formação de duas pessoas.

E talvez seja justamente aí que esteja a beleza desta primeira etapa.

Antes que existisse uma aliança, existiram duas vidas.

Antes que houvesse um propósito compreendido, houve uma preparação que ninguém sabia nomear.

Antes que a fé se tornasse uma caminhada consciente, houve marcas que começaram a ocupar espaço.

Aos poucos, a busca começaria a ganhar forma

No caso de Rosinete, existe um ponto cronológico que precisa permanecer claramente preservado.

Aos quatorze anos, ela começou a frequentar a igreja com sua mãe e sua irmã Rosineide e passou a buscar a Deus de maneira mais séria. Esse momento representa uma mudança concreta e será tratado no capítulo seguinte, porque ali começa uma nova fase de sua caminhada espiritual.

Portanto, o capítulo que termina aqui não deve tomar para si aquilo que pertence ao próximo.

Seu papel é outro.

É mostrar a preparação anterior.

Mostrar que a fé não apareceu em uma história sem raízes.

Mostrar que, antes da caminhada consciente, existiram referências.

Mostrar que a família foi um dos primeiros lugares onde valores foram recebidos.

Mostrar que uma criança pode carregar consigo marcas que somente muitos anos depois compreenderá plenamente.

E, sobretudo, respeitar o tempo da história.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
— Eclesiastes 3:1

Essa palavra se ajusta com particular força à história que começava a se desenhar.

Havia um tempo para a infância.

Havia um tempo para crescer.

Havia um tempo para aprender.

Havia um tempo para começar a buscar.

E haveria, mais adiante, um tempo para compreender.

Naquele momento, porém, a história ainda estava no princípio.

Rosinete ainda era Rosinete Gonsaga de Lima.

Ivanildo ainda caminhava pela sua própria estrada.

E nenhum dos dois conhecia o capítulo que um dia escreveriam juntos.

As marcas já existiam.

As sementes já estavam presentes.

Mas a revelação ainda não havia chegado.

E quando chegasse, ela encontraria duas vidas que já haviam sido formadas por tudo aquilo que viveram antes.

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará.”
— Salmos 37:5

Talvez seja essa a maneira mais fiel de encerrar este capítulo: não afirmando que tudo já estava compreendido, mas reconhecendo que nem tudo o que começa pode ser imediatamente reconhecido como começo.

Havia sementes.

Havia marcas.

Havia formação.

E havia um futuro que ainda permanecia oculto.

O tempo haveria de revelar o que, naquele momento, nenhum dos dois conseguia enxergar.