CAPÍTULO 62 — QUANDO A BATALHA PARECIA ATINGIR O CORPO
“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.”
Salmos 46:1
Havia momentos em que a guerra deixava de parecer apenas uma experiência da alma e começava a tocar aquilo que o ser humano sente como mais imediato: o próprio corpo.
Para Ivanildo, aquele período não foi simplesmente uma sequência de dias difíceis. Era um tempo de deserto, de oração, vigilância e acontecimentos que, em sua compreensão espiritual, exigiam discernimento.
Enquanto a vida seguia aparentemente normal, havia uma realidade interior que se tornava cada vez mais intensa. Ivanildo continuava vendo Rosinete em alguns lugares, inclusive no sacolão na saída do Parque dos Ferreiras, onde ela trabalhava. Ele ia até ali para comprar bananas. Via aquela mulher que já conhecia de vista desde os primeiros anos, mas, segundo seu próprio testemunho, não havia ainda qualquer pensamento sentimental que lhe permitisse imaginar o papel que ela teria em sua história.
Também a via, em outras ocasiões, na laje da casa de seus pais.
A proximidade física, entretanto, não significava compreensão.
Eles podiam estar no mesmo horizonte, separados por poucos metros ou por uma simples rua, e ainda assim permanecerem completamente distantes daquilo que, mais tarde, entenderiam como propósito.
Foi nesse cenário que Ivanildo começou a perceber que algo não estava bem.
Em determinados momentos, pensava estar enfrentando pressão alta. Procurava atendimento no posto de saúde e, conforme relata, o médico dizia que não encontrava nele aquilo que explicasse o que estava sentindo.
A experiência aumentava a sua perplexidade.
Havia manifestações que ele sentia no corpo, mas não encontrava uma explicação física que correspondesse à intensidade daquilo que vivia.
É importante registrar este episódio como aquilo que ele foi para Ivanildo: um testemunho de uma batalha espiritual compreendida à luz da sua fé. Não se trata, nesta narrativa histórica, de substituir uma avaliação médica por uma explicação espiritual. O que se preserva é a maneira como Ivanildo viveu e interpretou aqueles acontecimentos naquele período.
Foi então que surgiu uma palavra que, para ele, ganhou um peso singular.
Dona Neve, esposa do Sr. Paulo, uma serva de Deus que fazia parte daquele ambiente, afirmou a Ivanildo que ele não tinha um problema físico e que aquela situação era espiritual.
Aquela interpretação encontrou lugar dentro daquilo que ele já vinha discernindo por meio da oração e das Escrituras.
A partir daquele momento, Ivanildo passou a enfrentar aquela experiência por outra perspectiva.
Se o que estava acontecendo não podia ser compreendido apenas pelo que os olhos naturais percebiam, ele buscaria discerni-lo espiritualmente. Sua referência estava na convicção bíblica de que existem realidades que precisam ser examinadas à luz de Deus, e não apenas segundo a aparência imediata dos acontecimentos.
Havia ainda outro elemento que tornava aquela fase particularmente profunda:
a intercessão por alguém cuja identidade ele ainda não compreendia.
Segundo seu testemunho, enquanto Rosinete estava afastada da antiga instituição, ele já vivia uma intensa batalha e intercedia por ela sem saber que estava intercedendo precisamente por ela.
Para Ivanildo, isso se tornou posteriormente uma das marcas mais impressionantes daquele período:
o coração podia estar sendo conduzido antes que a consciência compreendesse o caminho.
“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
João 16:33
O que parecia ser uma batalha contra o próprio corpo começava, portanto, a se revelar, na compreensão de Ivanildo, como parte de um processo maior.
Não era apenas o desconforto de uma madrugada ou a inquietação de um homem tentando entender o que lhe acontecia. Era uma estação em que fé, espera, intercessão e discernimento caminhavam juntos.
As Agendas de Guerra, que já registravam aquela época, tornavam-se testemunhas silenciosas desse processo. Nelas, a experiência não aparecia como uma história inventada depois dos acontecimentos, mas como registros produzidos durante a própria caminhada.
Por isso, para a memória desta biografia, elas possuem valor especial: preservam a atmosfera espiritual de uma época em que Ivanildo ainda não conhecia o desfecho daquilo que estava vivendo.
E havia uma ironia profunda na paisagem daqueles dias.
Ivanildo podia comprar bananas no lugar onde Rosinete trabalhava; podia vê-la na laje da casa de seus pais; podia caminhar pelos mesmos espaços e, ainda assim, não saber.
A presença já existia; a revelação, não.
O futuro estava perto o bastante para ser visto, mas ainda distante o bastante para não ser reconhecido.
Foi assim que aquele período se tornou uma espécie de fronteira entre duas realidades.
De um lado, o homem que sentia no corpo os efeitos de uma batalha que não compreendia inteiramente.
Do outro, o homem que, pela oração, começava a aprender que nem tudo o que acontece na vida pode ser interpretado imediatamente.
Entre uma coisa e outra estava o tempo — e, para Ivanildo, o tempo de Deus.
Mais tarde, olhando para trás, ele compreenderia que aquela fase não podia ser separada dos acontecimentos que viriam. A batalha pelo coração, as vigílias, o Monte da Resposta, as Agendas de Guerra e a aproximação de Rosinete pertenciam a uma mesma grande narrativa.
Mas, naquele momento, Ivanildo ainda caminhava sem possuir todas as respostas.
Talvez essa seja uma das características mais profundas daquela estação:
Deus não lhe entregou o mapa inteiro.
Deu-lhe apenas luz suficiente para continuar andando.
E, enquanto o corpo parecia anunciar uma batalha, a alma aprendia a permanecer de pé.
“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.”
Romanos 8:26
Naquela época, Ivanildo ainda não sabia onde aquela estrada terminaria.
Não sabia que, poucos capítulos adiante na história, o nome que tantas vezes surgia apenas como uma presença distante se tornaria Rosinete, sua esposa e companheira de uma vida inteira.
Não sabia que a mulher que ele via sem intenção sentimental já estava, segundo sua compreensão espiritual, sendo alcançada por suas orações.
Ele apenas sabia que precisava continuar.
Continuar buscando.
Continuar discernindo.
Continuar confiando.
Porque, quando o homem não compreende o que está acontecendo, a fé pode se tornar a decisão de permanecer diante de Deus mesmo sem possuir todas as explicações.
E foi justamente nesse lugar — entre o que o corpo parecia dizer, o que a alma suportava e aquilo que o Espírito Santo lhe ensinava — que Ivanildo continuou sua caminhada.
A batalha parecia ter atingido o corpo.
Mas a história ainda revelaria que, por trás daquela estação, havia um processo muito maior:
Deus estava preparando o coração para reconhecer aquilo que os olhos ainda não podiam compreender.

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