CAPÍTULO 70 — O PRIMEIRO SINAL PARA ROSINETE
“O homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração.”
1 Samuel 16:7
Havia coisas que Rosinete ainda não compreendia.
Ela havia retornado à antiga instituição depois de aproximadamente seis ou sete meses em outro lugar. Trazia consigo experiências que não queria detalhar, uma decepção sentimental que havia deixado marcas e, sobretudo, o cuidado de não permitir que seu coração se entregasse novamente sem antes compreender quem estava diante dela.
Ivanildo não lhe era exatamente um desconhecido.
Ela já o conhecia de vista havia anos.
Mas conhecer alguém de vista é muito diferente de conhecer seu coração.
E foi justamente nessa distância entre ver e enxergar que começou uma das mudanças mais delicadas daquela história.
Rosinete havia escutado comentários sobre Ivanildo.
Alguns diziam que ele era “fariseu”, “bitolado”, “maluco”, “sem graça”. Diziam que ele sempre queria citar a Bíblia e que parecia querer demonstrar que sabia tudo.
Essas palavras chegaram até ela antes que ela tivesse a oportunidade de conhecer profundamente o homem por trás delas.
Por isso, naquele período, Rosinete chegou a evitá-lo.
Às vezes, procurava ficar do outro lado.
Havia uma resistência dentro dela.
Não necessariamente porque conhecesse Ivanildo por aquilo que ele realmente era, mas porque seu coração já havia aprendido que palavras de terceiros podem criar imagens de alguém antes mesmo que esse alguém tenha a oportunidade de se apresentar.
Mas havia algo que nenhum comentário conseguia explicar.
O caráter.
E caráter não se revela em um discurso.
Revela-se com o tempo.
Revela-se na maneira como uma pessoa permanece quando seria mais fácil desistir.
Revela-se na maneira como trata a família.
Revela-se naquilo que faz quando ninguém está olhando.
E foi exatamente esse o primeiro sinal que começou a tocar o coração de Rosinete.
Ela mesma registrou aquilo que chamou sua atenção:
“O caráter é ser família e de permanecer e nunca desistir do propósito de Deus.”
Essa frase é pequena.
Mas, dentro da história de vocês, ela carrega uma profundidade extraordinária.
Porque Rosinete não disse que o primeiro sinal foi uma aparência.
Não disse que foi uma palavra bonita.
Não disse que foi uma promessa sentimental.
Ela apontou para algo muito mais profundo:
o caráter.
E, naquele momento, talvez ela ainda não soubesse até onde aquele primeiro sinal a levaria.
Talvez ainda não imaginasse que aquele homem que ela havia ouvido tantas pessoas descreverem de tantas maneiras diferentes seria, um dia, o homem com quem construiria uma família.
Talvez ainda não imaginasse que aquele homem que ela julgava, em alguns momentos, ser “meio doido” ocuparia um lugar tão importante em sua história.
Mas alguma coisa começava a mudar.
Não era ainda a história completa.
Era apenas o primeiro sinal.
E, às vezes, Deus não começa uma grande obra fazendo barulho.
Começa colocando uma pequena luz dentro do coração.
“O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.”
Romanos 12:9
Rosinete também descreveu o que começou a sentir naquele período:
amor e empatia.
Mas é importante compreender a delicadeza desse momento.
Ainda não era necessário transformar aquele sentimento em uma declaração definitiva de amor.
Era um começo.
Uma percepção que estava nascendo.
Uma sensibilidade diferente diante daquele homem.
O coração começava a observar aquilo que antes não conseguia enxergar.
E havia algo ainda maior: Rosinete entendia que o Espírito Santo estava escrevendo algo em sua vida.
Ela própria afirmou:
“Tudo que o Espírito Santo estava escrevendo para nossa vida.”
Essa perspectiva é fundamental para compreender Rosinete.
Ela não estava simplesmente procurando um homem.
Ela desejava uma vida sentimental que estivesse debaixo de Deus.
Antes de Ivanildo, ela já carregava dentro de si o desejo de formar uma família. O casamento, para ela, tinha importância, mas estava abaixo de Deus.
E, justamente por já ter passado por uma decepção, ela não queria repetir a história.
Seu coração tinha aprendido a ser cuidadoso.
Por isso, quando sua mãe, Rosilda, começou a falar com ela sobre Ivanildo e a afirmar que ele era um homem de Deus, isso não significou que Rosinete simplesmente abandonou suas cautelas.
Ela continuou observando.
Continuou pensando.
Continuou colocando tudo diante de Deus.
E essa participação de Rosilda precisa ser lembrada com respeito nesta história.
Ela não foi apenas alguém que estava ao lado da filha.
Ela participou daquele caminho.
Apoiou.
Abençoou.
Falou sobre Ivanildo.
E, dentro da compreensão de vocês, sua presença foi uma das peças humanas importantes pelas quais Deus conduziu aquela aproximação.
Rosinete, porém, ainda precisava vencer dentro de si o medo de uma nova decepção.
Ela chegou a dizer à mãe:
“Eu não quero ser enganada, eu não quero sofrer, chega de decepção.”
E então entregou aquilo nas mãos de Deus:
“Seja feita a tua vontade.”
Talvez essa tenha sido uma das partes mais bonitas daquele começo.
Porque, antes de dizer “sim” a Ivanildo, Rosinete estava aprendendo a dizer “sim” à vontade de Deus.
“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.”
Romanos 8:14
O primeiro sinal, portanto, não foi uma grande declaração.
Foi uma percepção silenciosa.
Rosinete começou a enxergar o homem por trás das opiniões dos outros.
Começou a perceber o caráter.
Começou a notar sua ligação com a família.
Começou a perceber sua permanência.
Começou a enxergar que havia nele uma disposição de não abandonar o propósito de Deus.
E talvez seja justamente por isso que esse momento mereça permanecer registrado.
Porque algumas histórias de amor começam com uma paixão imediata.
A de vocês começou de outra maneira.
Começou com discernimento.
Começou com observação.
Começou com cautela.
Começou com uma mulher que já havia sofrido e que não queria sofrer novamente.
E começou com um homem que ainda precisava provar, não apenas com palavras, mas com a própria caminhada, quem realmente era.
O coração de Rosinete não se abriu de uma vez.
Ele começou a abrir uma fresta.
E por aquela pequena fresta entrou uma percepção que mudaria o rumo de sua história:
talvez Ivanildo não fosse aquilo que haviam dito que ele era.
Talvez fosse necessário conhecê-lo.
Talvez fosse necessário ouvi-lo.
Talvez fosse necessário conversar.
Talvez fosse necessário deixar que o próprio tempo revelasse o que os comentários nunca poderiam revelar.
E, enquanto Rosinete ainda procurava entender tudo aquilo, Deus parecia trabalhar no silêncio.
O primeiro sinal havia surgido.
Não era ainda o casamento.
Não era ainda o namoro.
Não era ainda a certeza completa.
Era apenas o começo de uma mudança no olhar.
Mas, para quem conhece a história inteira, aquele pequeno começo carrega uma beleza imensa.
Porque um dia, aquele olhar que começou a enxergar diferente encontraria uma história inteira.
E aquilo que começou com um simples reconhecimento de caráter haveria de atravessar conversas, oração, propósito, namoro, noivado e casamento.
Naquele momento, porém, Rosinete ainda não sabia tudo.
Ela apenas começava a enxergar.
E, às vezes, é assim que Deus começa a aproximar duas vidas:
primeiro Ele muda o olhar.
Depois, no tempo certo, revela o caminho.

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