CAPÍTULO 9 — QUANDO A VIDA JÁ TRAZIA SUAS PRIMEIRAS PROVAS

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.”
Salmos 23:1

A infância de Rosinete Gonsaga de Lima não foi feita apenas de brincadeiras, festas, irmãos, vizinhos e noites de convivência.

Havia também aquilo que toda vida humana, cedo ou tarde, apresenta: dias difíceis.

Algumas dificuldades chegaram enquanto ela ainda era criança. Outras exigiram dos adultos decisões, cuidado e presença. E algumas experiências, embora não tenham destruído a alegria daquela fase, fizeram com que a menina conhecesse muito cedo que a vida também possui momentos de fragilidade.

Entre essas primeiras provas, uma das mais importantes foi relacionada à sua saúde.

Quando o corpo de uma criança começa a exigir cuidado

Rosinete enfrentou problemas respiratórios durante a infância.

As crises de bronquite fizeram parte de um período delicado de sua vida. Aos 12 anos, segundo seu próprio relato, ela estava bastante debilitada em razão desse problema de saúde.

Para uma criança, enfrentar dificuldades respiratórias não representa apenas uma questão física.

Há limitações.

Há preocupação dos adultos.

Há momentos em que aquilo que outras crianças fazem naturalmente pode exigir mais cuidado.

A família precisava acompanhar aquela realidade.

E, nesse contexto, Rosilda e José Gonzaga precisaram exercer aquilo que já fazia parte de sua vida como pais: cuidar dos filhos diante das dificuldades.

A infância continuava existindo com suas brincadeiras e alegrias, mas havia também uma realidade que não podia ser ignorada.

Rosinete precisava de atenção.

Precisava de cuidado.

Precisava de proteção.

E foi justamente nesse cenário que algumas experiências familiares ganharam ainda mais significado.

A dificuldade financeira dentro de uma família numerosa

A família de Rosinete era grande.

E uma família numerosa naturalmente traz responsabilidades igualmente grandes.

Havia muitos filhos, necessidades diversas e as despesas próprias de uma casa com tantas pessoas. José Gonzaga trabalhava, e a família seguia sua vida dentro das condições que possuía.

O relato também registra que houve períodos em que os pais não estavam financeiramente bem.

Isso não significa que a história de Rosinete possa ser reduzida à falta de recursos.

Pelo contrário.

A memória que permanece é de uma casa cheia, de convivência, de família e de valores.

Mas a dificuldade existia.

E reconhecer essa realidade é importante para compreender melhor a formação daquela menina.

Nem sempre havia abundância.

Era necessário dividir.

Era necessário ajudar.

Era necessário aprender a viver dentro das possibilidades da família.

Essa realidade fazia parte do cotidiano e, pouco a pouco, ensinava algo que não precisava ser dito em palavras: a vida exige responsabilidade.

Quando a família precisava se reorganizar

Em determinado período da infância, as crises de bronquite foram suficientemente frequentes para que uma tia de Rosinete manifestasse o desejo de recebê-la em sua casa.

Rosinete passou então um período na residência dessa tia, no Caju, no Rio de Janeiro, juntamente com três primos: Fátima, Nilda e Edmilson.

É importante registrar esse episódio com precisão.

A ida para a casa da tia aconteceu em um contexto em que Rosinete sofria com as crises de bronquite. Seus pais também atravessavam dificuldades financeiras naquele período, mas, segundo o próprio relato, essa não foi a razão principal de sua permanência na casa da tia.

Houve o pedido da tia.

Houve a necessidade de cuidado.

E houve também a disposição de Rosinete em viver aquele período junto dela.

A experiência poderia ter sido lembrada apenas como uma separação temporária do ambiente familiar.

Mas não foi assim.

Uma menina recebida como princesa

Na casa da tia, Rosinete encontrou acolhimento.

Ela própria descreve aquele tratamento de uma maneira muito bonita: era tratada “como uma princesa”.

Havia carinho.

Havia respeito.

Havia conversa.

Havia conselhos.

A tia tornou-se, naquele período, uma presença importante em sua formação.

E os primos Fátima, Nilda e Edmilson também fizeram parte daquela experiência.

Isso revela algo importante sobre a maneira como a família ampliada participava da vida de Rosinete.

Quando uma dificuldade surgia, ela não estava completamente sozinha.

Havia pessoas ao redor.

Havia parentes que podiam acolher.

Havia vínculos que ultrapassavam a casa dos pais.

Aquela temporada no Caju, portanto, não deve ser vista apenas como consequência de uma dificuldade.

Foi também uma experiência de acolhimento familiar.

Em meio a uma infância marcada por problemas respiratórios e limitações materiais, Rosinete encontrou cuidado em outro lar.

A doença não apagou a infância

Seria um erro contar essa parte da história como se Rosinete tivesse vivido uma infância triste.

O próprio conjunto de suas lembranças mostra o contrário.

Ela brincava.

Convivia com os irmãos.

Participava das atividades da vizinhança.

Frequentava as festas.

Conversava com pessoas próximas.

Ajudava em casa.

Acompanhava os irmãos.

Tinha amizades.

Havia alegria.

Mas havia também a bronquite.

E as duas coisas podiam existir simultaneamente.

Essa talvez seja uma das características mais verdadeiras da infância: a dificuldade não necessariamente elimina a alegria.

Uma criança pode enfrentar uma limitação e, ainda assim, encontrar motivos para sorrir.

Pode precisar de cuidados e, ao mesmo tempo, querer brincar.

Pode viver uma fase financeiramente difícil e continuar valorizando uma casa cheia de irmãos.

Pode experimentar fragilidade e continuar desenvolvendo força.

É nessa combinação que a história de Rosinete precisa ser compreendida.

O cuidado que vinha de muitos lados

A presença dos pais foi fundamental.

Rosilda e José Gonzaga eram as referências centrais de sua criação. Mas o cuidado não terminava neles.

Havia irmãos.

Havia parentes.

Havia vizinhos.

Havia pessoas que participavam da rotina familiar.

Dona Vanda e Dona Ana, por exemplo, pertenciam a uma vizinhança em que as famílias mantinham proximidade e apoio mútuo. A convivência acontecia tanto nos momentos de alegria quanto nas situações de doença.

Essa realidade ajudava a diminuir o peso das dificuldades.

Quando uma família enfrenta uma situação difícil, a presença de pessoas próximas pode representar muito.

Uma conversa.

Um conselho.

Uma visita.

Uma ajuda.

Um simples gesto de atenção.

Nem sempre são grandes atos que sustentam alguém em uma fase difícil.

Às vezes, é simplesmente saber que existem pessoas por perto.

A responsabilidade começou cedo

A própria personalidade de Rosinete fazia com que ela assumisse responsabilidades ainda na infância.

Ela gostava de ajudar.

Gostava de cuidar.

Acompanhava os irmãos em diferentes situações. Levava-os para tomar vacina. Acompanhava-os quando iam jogar bola. Participava das atividades deles.

Essa disposição não nasceu de um único acontecimento.

Foi sendo construída dentro da própria casa.

Em uma família grande, a convivência também ensina que cada pessoa precisa participar.

A criança observa.

Ajuda.

Aprende.

Assume pequenas tarefas.

E, pouco a pouco, começa a compreender que a vida não gira somente em torno das próprias necessidades.

Rosinete já demonstrava essa capacidade.

Mesmo enquanto enfrentava suas próprias limitações de saúde, havia nela uma inclinação para olhar também para os outros.

Esse contraste é significativo.

Ela precisava ser cuidada, mas também gostava de cuidar.

A força que não fazia barulho

A personalidade forte de Rosinete também começou a aparecer cedo.

Mas sua força não era descrita como agressividade.

Ela não era uma criança voltada para conflitos.

Era mais pacífica, calma e fraterna.

Sua liderança aparecia na maneira como se relacionava com os irmãos e com as pessoas próximas.

Isso ajuda a compreender como as dificuldades foram sendo absorvidas por sua personalidade.

Não há, no relato, a construção de uma criança endurecida pelas provas.

Há, antes, uma menina que continuava convivendo, ajudando, brincando e aprendendo.

As dificuldades não são apresentadas como aquilo que definiu toda a sua infância.

Elas são parte dela.

E essa diferença é fundamental.

O que a dificuldade ensinava sem precisar explicar

As crianças aprendem muitas coisas sem perceber que estão aprendendo.

Uma criança que vive em uma família grande aprende a dividir espaço.

Uma criança que passa por limitações financeiras aprende que nem tudo está disponível imediatamente.

Uma criança que enfrenta problemas de saúde aprende, ainda que indiretamente, que o corpo possui limites.

Uma criança que precisa de cuidados aprende o valor de quem cuida.

Uma criança que vê os adultos enfrentando dificuldades aprende observando como eles respondem.

Rosinete cresceu nesse ambiente.

E os valores ensinados pelos pais davam direção a essa realidade.

A família ensinava unidade, união, caráter e respeito ao próximo.

Esses valores não existiam apenas como palavras.

Eram aprendidos dentro da convivência.

Era a família vivendo junto.

Era necessário aprender a respeitar.

Era necessário aprender a ajudar.

Era necessário permanecer unido.

E essas lições ganhavam ainda mais força quando a vida apresentava suas primeiras provas.

“Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas; melhor é o paciente de espírito do que o altivo de espírito.”
Eclesiastes 7:8

Entre a fragilidade e a formação

A infância de Rosinete, portanto, não pode ser contada apenas pelo lado luminoso das festas e brincadeiras.

Também é necessário registrar os momentos em que a vida exigiu mais dela e de sua família.

A bronquite trouxe períodos de fragilidade.

A situação financeira da família conheceu limitações.

Houve um momento em que Rosinete passou uma temporada longe da casa dos pais, sendo acolhida pela tia no Caju.

E, ao mesmo tempo, existia uma estrutura familiar que permanecia ao seu redor.

Pais.

Irmãos.

Primos.

Vizinhos.

Pessoas que conversavam.

Pessoas que cuidavam.

Pessoas que aconselhavam.

Esse conjunto de relações impediu que a dificuldade fosse a única narrativa possível.

A menina continuou crescendo.

Continuou aprendendo.

Continuou convivendo.

Continuou formando sua personalidade.

A infância também era uma escola de resistência

Não se trata de transformar cada dificuldade em uma grande lição pronta.

A verdade histórica é mais simples e, justamente por isso, mais profunda.

Rosinete viveu situações que exigiram cuidado e adaptação.

Ela não precisava, naquele momento, saber o que aquelas experiências significariam décadas depois.

Era apenas uma criança vivendo sua vida.

Quando a bronquite atacava, era uma dificuldade real.

Quando a família enfrentava limitações financeiras, era uma realidade concreta.

Quando precisou permanecer um período na casa da tia, era uma mudança em sua rotina.

Só mais tarde seria possível olhar para trás e perceber como todas essas experiências fizeram parte de sua formação.

A infância estava ensinando sem anunciar que ensinava.

E talvez seja assim que grande parte do caráter seja construído.

Não apenas pelos grandes acontecimentos, mas pela repetição das pequenas experiências.

Pelo modo como uma criança é cuidada.

Pelo modo como aprende a cuidar.

Pela maneira como vê seus pais enfrentarem as dificuldades.

Pelo modo como recebe carinho de um parente.

Pela forma como aprende a conviver com irmãos.

Pelo modo como uma comunidade se aproxima quando alguém precisa.

Tudo isso deixa marcas.

As primeiras provas não eram o fim da história

É importante que este capítulo termine onde a história realmente termina neste ponto da cronologia.

Ainda não é o momento de falar das decisões espirituais que viriam depois.

Ainda não é o momento de entrar na caminhada de Rosinete aos 14 anos.

Ainda não é o momento de narrar experiências posteriores.

Esses acontecimentos pertencem a outros capítulos e terão seu próprio espaço.

Aqui, basta olhar para a menina.

Para a criança que precisou lidar com a fragilidade da saúde.

Para a família que precisou cuidar.

Para os períodos de limitação.

Para a tia que acolheu.

Para os primos que compartilharam aquele tempo.

Para os pais que permaneceram como referências.

Para os irmãos que estavam próximos.

Para os vizinhos que faziam parte da comunidade.

E para uma menina que, mesmo em meio às primeiras provas da vida, continuava sendo formada.

Não há necessidade de antecipar o futuro para reconhecer a importância daquele período.

As primeiras batalhas já estavam ensinando a menina a permanecer de pé.

A vida ainda apresentaria muitos capítulos.

Mas, naquele momento, Rosinete ainda era uma criança.

Uma criança que brincava.

Uma criança que ajudava.

Uma criança que precisava de cuidado.

Uma criança que aprendia.

Uma criança que crescia dentro de uma família grande, cercada por pessoas que, cada uma à sua maneira, participavam de sua formação.

E assim, entre a alegria das brincadeiras e a realidade das dificuldades, a infância seguia seu curso.

Sem que ela soubesse ainda tudo o que viria.

Sem que sua família pudesse imaginar todas as etapas futuras.

Sem que aquele período precisasse ser transformado em algo maior do que realmente foi.

Era simplesmente a vida acontecendo.

E, dentro dela, as primeiras provas já deixavam suas marcas.

“Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita e te digo: Não temas, que eu te ajudo.”
Isaías 41:13